Das artes e das bochechas… como fica?

Sobe na cadeirinha, da cadeirinha, sobe na mesinha. Sobe na cadeira, apóia na mesa. Sobe no banquinho, senta na poltrona. Sobe no banco, mexe em tudo em cima da mesa. Sobe no banquinho, puxa o varal, derruba o varal nela. Sobe no sofá, se joga no sofá, se joga do sofá.

O coração da gente fica apertado. A gente dá bronca. A gente fica brava. A gente quase morre de susto. Aí, a gente vai para a cozinha, fecha a porta para ela não mexer em nada e a pessoa faz essa carinha. E, aí, a gente fica como?

Posso com essas bochechas e essa boca linda?

A reclamação e as escolhas

Eu reclamo todos os dias de ter que ficar em casa. Reclamo dos trabalhos domésticos. Reclamo da falta de independência financeira. Reclamo da falta absoluta de tempo para mim mesma. Sou a encarnação do “mimimi” e o absurdo da reclamação.

Ao mesmo tempo, não consigo mais me imaginar em um trabalho que eu fique longe dos meus filhos o dia todo  ou em outras pessoas passando para eles todos os valores que acredito importantes. Reclamos, mas não tomo atitudes. Talvez porque, inconscientemente, eu ainda queira estar aqui com eles e há um lado meu que não consegue assumir isso.

Aí, que hoje cedo, depois de passar a manhã reclamando internamente, eu vi este vídeo:

E chorei, chorei, chorei. E me lembrei deste outro. (talvez, ateus, agnósticos e não-cristãos sofram um pouquinho, mas a mensagem é muito legal).

Acho que eu me cansei de tanto reclamar.

Bom, eu não me lembro da minha primeira infância. Tenho alguns flashes. Mas, de modo geral, eu não me lembro do quanto minha mãe se dedicou a nós. Meus filhos provavelmente não se lembrarão de todo esse meu empenho. Por outro lado, eu realmente acredito que todo esse amor, toda essa energia que doamos aos pequenos ajuda a fortalecer os alicerces internos de meu filhos.

Se fiz essa escolha, se acredito no valor que isso tem, por que a torno tão pesada? Acho que, por um lado, sinto muita falta daquela independência que a gente tem quando se está trabalhando. Acho que carrego comigo uma desvalorização dessa opção. Acabo me esquecendo do que me motivou ter o cuidado com meus filhos uma prioridade. Passo olhar os tijolos ao invés da catedral, a louça, ao invés das crianças sendo felizes. Preciso parar de reclamar e assumir minhas escolhas. E ser feliz com elas.

 

 

(P.S.: não estou condenando quem trabalha, não estou dizendo que crianças que a mãe trabalham não são felizes, não acho que atitudes diferentes das minhas são piores ou melhores. Essa é apenas a minha perspectiva sobre as minhas atitudes, tá?)

“Calem a boca” ou “Gente que incita culpa nas mães”

Trabalhar e ficar com os bebês

Bebê grita

Nossas avós, e todas as ancestrais, não tinham opção: tinham que ficar com os filhos em tempo integral. Nossas mães não tinham opção, não podiam ficar com os filhos. Tanto as primeiras quanto as segundas, agiram baseadas na cultura da época. Era um escândalo as mulheres que trabalhavam e deixavam seus filhos há muitos anos; era um escândalo as mulheres que abriam mão de suas carreiras por causa dos filhos há poucas gerações. Atualmente, nós teríamos opções: ficar ou não com os filhos não (deveria ser) é um escândalo.

Apesar disso, há nos diversos blogs, sites e salas de pediatras, um discurso sobre o “mal” de deixar pequenos bebês nos berçários. Pessoas que falam sem ter o menor conhecimento nem da realidade da maioria da população, nem de pesquisas sérias sobre socialização de bebês (assunto para um post futuro, quem sabe).

Há vários fatores que levam uma mulher a deixar seu pequeno pacotinho sorridente em um berçário. O principal é o de ter de pagar as contas. Simples assim. Vou dar o meu exemplo. Maridão ganhava R$800,00 quando meu filho nasceu. Eu ganhava o dobro. Meu aluguel em um bairro simples era de R$450,00. Precisa de ajuda pra fazer essa conta? A solução teria sido mudar para a periferia? Não investir na carreira dele, porque era somente o salário inicial? Eu não tinha saída, tinha contas pra pagar no fim do mês.

Outro fator é a personalidade da mulher. Algumas precisam trabalhar como uma forma de continuar a ser um pouco de si mesma. O trabalho funciona como terapia, como modo de continuar ligada à realidade, a si mesma. E essa mulher não é menos mãe por tomar uma decisão dessa.

O “Como cuidar de seu bebê”

Livros que falam de rotina, livros que falam pra deixar chorando, livros que falam em acalentar a todo momento. Livros e “especialistas” que falam. Um fala, outro adota, todos julgam o diferente (why, my god!?).

Crianças gritam

Só quem já teve um bebê pequeno consegue entender o que significa viver em função das necessidades de outra pessoa – que depende de você em tudo.

Cada mãe conhece seus filhos. Sabe o que é choro de fome, manha, cansaço. Toda mãe testa seus próprios limites para fazer o melhor para o filho. E aí vem o especialista na TV e diz que o que ela faz está errado. Ela lê em blogs e sites de maternagem que o que ela acredita não vale nada. Insegura, deixa de reconhecer o seu próprio bebê. Não tem mais certeza do choro, não sabe mais o que fazer para acalentá-lo, não entende mais se é cansaço ou fome.

Quando a mãe, segura, pede ajuda, aí, sim, tudo será melhor compreendido e, com certeza, melhorará a relação e a dinâmica na vida familiar. A gente sabe dizer: “Estou no meu limite, alguém me ajuda?”

A Amamentação

Outro dia li um texto muito bom sobre os benefício da amamentação – uma nota no Facebook: http://virou.gr/q7Dc5D . Uma das ideias que a autora defende é a de pararmos de idealizar esse momento.

“Especial. ‘A amamentação é um relacionamento especial.’ ‘Faça um cantinho especial para amamentar.’ Em minha família, refeições especiais exigem mais tempo. Ocasiões especiais significam mais trabalho. Ser especial é bom, mas é complicado, não é parte do dia-a-dia, e não é o que queremos fazer toda hora. Para a maioria das mulheres, a amamentação precisa se encaixar facilmente em uma vida agitada – o que acontece, é claro. ‘Especial’ é um conselho para desmamar, não para amamentar.”

Amamentação é difícil; no começo, pode doer muito, desgasta, nem sempre estaremos lindas, leves e soltas para alimentarmos nossa pequena boquinha faminta. As mães precisam saber disso para darem conta dessa realidade, para saber que não é só ela que sente raiva, culpa e desgaste.

Eu sou TOTALMENTE a favor da amamentação. Mas preciso dizer que livre demanda é ideal. Livre demanda é para quem pode dedicar-se exclusivamente ao bebê. Toda vez que minha pequena sente fome, eu a amamento. Mas eu não consigo satisfazer a necessidade de sucção dela no peito. Isso é irreal para mim e vai além do que posso.

Sou a favor da desmitificação da amamentação.

Para ir um pouco além, quando uma mãe decide – consciente – de que não quer amamentar seu rebento, ela não deixa de ser mãe por causa disso. Isso não a faz pior ou melhor do que ninguém. É necessário parar de julgar mães que tomaram decisões diferentes das nossas.

Os homens e o discurso

Perdoem meu palavreado. Eu não tenho pinto, por isso, têm muitas coisas ligadas ao universo masculino que não entendo. Por isso, não me intrometo. Se eu der minha opinião, será sem querer fazer com que se sintam culpados por serem quem são.

Homens não têm útero, não têm peitos. Não nos entendem. (Perdoem-me os homens que são exceções).

Alguns, intitulados como especialistas, dão opiniões que massacram nossa auto-estima e aumentam nossa culpa por sermos nós mesmas.

É fácil dizer a uma mãe o quanto ela faz mal a seu filho porque não o amamenta direito, porque não acalenta o seu bebê o suficiente, porque deixa-o em um berçário. “Mãe, você precisa se dedicar mais, seu filho precisa de você.” Mais?, ela pensa. Como assim? E tudo o que eu faço, então, não está bom? (Aposto que esses caras não fazem metade do que indicam. Apostos que vão a congressos e seminários regularmente, deixando as esposas sozinhas e enlouquecidas).

Se você tem babá e/ou diarista e/ou mensalista; se sua mãe, sogra, vizinha te ajudam integralmente; se o salário do marido paga todas as contas; se você não pira quando abre mão de tudo – até de si mesma – e assume a postura de mártir: não julgue quem é diferente, quem assumiu, por opção ou por necessidade, uma vida diferente da sua.

Quem me conhece pessoalmente sabe que hoje não trabalho, sabe que não gosto de me fazer de coitada, sabe que não tenho babá ou mensalista – vez ou outra, uma diarista. Sabe que eu não admito preconceitos e julgamentos.

Mães, gritem, por favor

Honestamente, eu enlouqueço com textos e índices e conselhos vindos de quem não sabe o que é real e julga aquelas que vivem diferente. Repletas de culpa, aí, sim, as mães passam a fazer o que REALMENTE é prejudicial para bebês e crianças: mimá-los demais, enchê-los de brinquedos e cacarecos desnecessários, perderem a paciência com as birras (porque a lógica é a seguinte: filho bravo porque mãe tá longe + mãe culpada = birra + brigas. Se a mãe está tranquila, consegue resolver sem partir pra agressão verbal ou física).

Na boa, não costumo falar isso, mas CALEM A BOCA!

Por que nossos filhos nos amam? – ou “Aceite seus limites”

No começo do ano, escrevi um texto sobre a gente aprender a aceitar os nossos limites como mãe e aceitar “A mãe que posso ser“. Esse parece ser um assunto que nunca se acaba e, vira-e-mexe, passamos por situações em precisamos nos lembrar disso.

Eu não sei exatamente por que, mas, às vezes, tenho muito medo de meu filho não me amar o suficiente, quer dizer, perder o vínculo.

Parece que, como um namorado ao descobrir nossos defeitos, ele deixará de nos amar e não vai mais querer ficar pertinho (eu sei, Freud, eu sei).

A verdade é que, primeiro, ele vai, sim, descobrir nossas falhas e, segundo, ele vai, sim, também se afastar de nós um dia (em uns 18 anos, por favor). (eu sei, Freud, eu sei)

Filhos, assim que aprendem a comer, andar e, principalmente, falar, “descobrem” nossas fraquezas e as testam diariamente – seja na alimentação, no comportamento, no sono e por aí vai…

Quando essa angústia bate, deixamos de pensar no porquê dos filhos nos amarem. Você sabe por que seu filho te ama?

A nossa entrega

Eles nos amam porque decidimos gerá-los e recebê-los nessa vida (em alguns casos, “somente” recebê-los). Eles nos amam porque os alimentamos e, independentemente do tipo de aleitamento, lançamos aquele olhar de profundo amor sobre eles. Nós os mantemos limpos e cheirosos. Eles nos amam porque nos entregamos a eles – cada mãe com a entrega possível. Eles nos amam porque abrimos mão de muitas coisas por eles. Nos amam porque colocamos limites (umas mais, outras menos); e porque atendemos a certos pedidos especiais que só as mães compreendem (do colinho para o bebê ao chamego para os mais velhos). Eles nos amam pelos beijos nos dodóis, pelos cuidados quando estão doentes – e quando não estão, também. Eles nos amam porque nos esforçamos ao máximo para que eles sejam pessoas felizes.

Acredito que, antes de nascer, nós escolhemos nossa família. Isso muda tanto o olhar. A história de “não pedi para nascer” torna-se “você me escolheu como mãe e foi por um bom motivo”!

Então, por fazermos tanto por eles, por termos sido escolhidas, deveríamos respeitar nossos limites e deixar de se sentir tão culpadas por aquilo que não conseguimos, ou podemos, realizar. Não importa o tipo de parto que você teve, nem quanto tempo conseguiu amamentá-lo, muito menos se você não é o tipo que passa horas brincando no chão ou não consegue/não quer dar todos os brinquedos do mundo para seus filhos.

Nós temos nossos defeitos, temos muitas falhas. Mas eles também têm. Aceitar isso em nós mesmas é dar a oportunidade a eles de aprenderem que devemos amar as pessoas como elas são – e não como nós gostaríamos que elas fossem. Ainda assim, esses pequenos são a expressão do “amor puro”, do “amor divino” e conseguem nos amar nas situações mais difíceis e complicadas – que dirá quando somos pessoas que se dedicam tanto!

Amigas mães, vamos parar de nos torturarmos tanto por amar nossos filhos? Eles nos amam e sempre vão nos amar. Estamos dando nosso melhor e, mesmo que não seja perfeito (porque não é), não vai adiantar muito sermos mães que não amam a si mesmas.

O problema e o medo dos traumas

Há poucos anos, perdi um medo: na aula de Psicologia da Educação, estudando Freud, fui que fiz uma descoberta.

Quando Freud começou a falar em suas aulas e palestras sobre os traumas de infância, várias mães, preocupadas com a educação de seus filhos, foram perguntar a ele o que deveriam fazer para que não crescessem com nenhum trauma. A resposta foi surpreendente – para elas e para mim: “Nada. Nada do que você fizer ou deixar de fazer pode impedir que a criança tenha um trauma.”

Pronto. Naquele instante, eu, neurótica que era sou com traumas e problemas posteriores em meus filhos, respirei aliviada. Puxa vida, simples assim? É, simples assim.

É bem lógico que certos comportamentos das pessoas que circundam a criança podem gerar traumas e problemas – violência, abuso, descaso, maus exemplos. Mas o excesso de preocupação com o trauma – ou o medo dele – também não pode moldar o comportamento dos pais.

Conheço uma senhora que sempre nos conta de que, na época em que seus filhos eram crianças, a psicologia afirmava que “dizer não para as crianças gerava trauma”. Crente neste pensamento, ela nunca dizia não para seus filhos. O irônico e infeliz resultado disso é que os filhos dela, hoje com mais de 40 anos, não tornam nenhum pouco fácil nem a vida dela, nem a deles. Adultos incapazes de enxergar a mãe e seus problemas, preocupados sempre com eles mesmos. Não dá para dizer que foi só isso o causador dos problemas dessas pessoas, mas dá para perceber a influência que isso teve.

Como sempre estive ligada à educação e sempre sonhei em ser mãe, a preocupação em não gerar traumas nos meus filhos sempre foi grande. Nunca fui adepta a seguir modas da pedagogia ou da psicologia, mas sempre me preocupei. Achava que determinados comportamentos meus – como não ser alguém que senta e fica horas brincando com a criança – poderiam gerar traumas nos meus filhos.

Depois de muita terapia para lidar com meus próprios traumas e dessa descoberta preciosa, cheguei a uma conclusão. Para sermos bons pais, não devemos ter tanto medo dos traumas. A gente tem medo de tanta coisa – e se culpa por tantas outras: deixar de comprar presentes, não passar tanto tempo com os filhos, obrigá-los a comer bem, colocá-los em uma rotina, fazer com que estudem, proibir certos programas de TV etc. Tudo isso parece, de certo modo, ótimo caldo para alguns dizerem: “Nossa, mas assim seu filho vai ficar assim, assado.”

A questão é que, não importa o que você faça, ele vai ter os traumas dele. O que fazer, então? A conclusão a que cheguei é que temos que priorizar internamente o que pretendemos para nossos pequenos: quando eu ajo dessa maneira, estou querendo chegar aonde? Quando eu decido algo, mesmo que pareça doloroso para os pequenos e que eles chorem copiosamente, não estou pensando se ele ficará com trauma ou não, mas se ele se tornará um adulto com caráter, correto e bondoso. O pensamento muda de “será que essa minha atitude vai gerar um trauma” para “será que essa minha atitude contribui para um futuro adulto melhor”?

Queridos amigos psicólogos, não fiquem bravos comigo. Não estou querendo que nós, mães ignorante da psicologia, façam coisas para “machucar” nossos pequenos. Acho que isso faz parte de duas discussões recentes: a da culpa que carregamos por tudo o que a gente faz – aqui e aqui- e a da preocupação com o tipo de adulto que nossos filhos ser tornarão – aqui. É lógico que todo estudo e toda dica são bem-vindos. Mas acho que nós sempre temos que filtrar e refletir até que ponto certas verdades cabem em nossa realidade. Se ficarmos apenas pensando nos traumas, talvez nós nos esqueçamos das próprias crianças…