Há poucos anos, perdi um medo: na aula de Psicologia da Educação, estudando Freud, fui que fiz uma descoberta.
Quando Freud começou a falar em suas aulas e palestras sobre os traumas de infância, várias mães, preocupadas com a educação de seus filhos, foram perguntar a ele o que deveriam fazer para que não crescessem com nenhum trauma. A resposta foi surpreendente – para elas e para mim: “Nada. Nada do que você fizer ou deixar de fazer pode impedir que a criança tenha um trauma.”
Pronto. Naquele instante, eu, neurótica que era sou com traumas e problemas posteriores em meus filhos, respirei aliviada. Puxa vida, simples assim? É, simples assim.
É bem lógico que certos comportamentos das pessoas que circundam a criança podem gerar traumas e problemas – violência, abuso, descaso, maus exemplos. Mas o excesso de preocupação com o trauma – ou o medo dele – também não pode moldar o comportamento dos pais.
Conheço uma senhora que sempre nos conta de que, na época em que seus filhos eram crianças, a psicologia afirmava que “dizer não para as crianças gerava trauma”. Crente neste pensamento, ela nunca dizia não para seus filhos. O irônico e infeliz resultado disso é que os filhos dela, hoje com mais de 40 anos, não tornam nenhum pouco fácil nem a vida dela, nem a deles. Adultos incapazes de enxergar a mãe e seus problemas, preocupados sempre com eles mesmos. Não dá para dizer que foi só isso o causador dos problemas dessas pessoas, mas dá para perceber a influência que isso teve.
Como sempre estive ligada à educação e sempre sonhei em ser mãe, a preocupação em não gerar traumas nos meus filhos sempre foi grande. Nunca fui adepta a seguir modas da pedagogia ou da psicologia, mas sempre me preocupei. Achava que determinados comportamentos meus – como não ser alguém que senta e fica horas brincando com a criança – poderiam gerar traumas nos meus filhos.
Depois de muita terapia para lidar com meus próprios traumas e dessa descoberta preciosa, cheguei a uma conclusão. Para sermos
bons pais, não devemos ter tanto medo dos traumas. A gente tem medo de tanta coisa – e se culpa por tantas outras: deixar de comprar presentes, não passar tanto tempo com os filhos, obrigá-los a comer bem, colocá-los em uma rotina, fazer com que estudem, proibir certos programas de TV etc. Tudo isso parece, de certo modo, ótimo caldo para alguns dizerem: “Nossa, mas assim seu filho vai ficar assim, assado.”
A questão é que, não importa o que você faça, ele vai ter os traumas dele. O que fazer, então? A conclusão a que cheguei é que temos que priorizar internamente o que pretendemos para nossos pequenos: quando eu ajo dessa maneira, estou querendo chegar aonde? Quando eu decido algo, mesmo que pareça doloroso para os pequenos e que eles chorem copiosamente, não estou pensando se ele ficará com trauma ou não, mas se ele se tornará um adulto com caráter, correto e bondoso. O pensamento muda de “será que essa minha atitude vai gerar um trauma” para “será que essa minha atitude contribui para um futuro adulto melhor”?
Queridos amigos psicólogos, não fiquem bravos comigo. Não estou querendo que nós, mães ignorante da psicologia, façam coisas para “machucar” nossos pequenos. Acho que isso faz parte de duas discussões recentes: a da culpa que carregamos por tudo o que a gente faz – aqui e aqui- e a da preocupação com o tipo de adulto que nossos filhos ser tornarão – aqui. É lógico que todo estudo e toda dica são bem-vindos. Mas acho que nós sempre temos que filtrar e refletir até que ponto certas verdades cabem em nossa realidade. Se ficarmos apenas pensando nos traumas, talvez nós nos esqueçamos das próprias crianças…