
Decidi voltar a trabalhar. Minha pequena já está quase andando, as contas também, assim como a minha necessidade interna em voltar àquela dinâmica boa que não tenha como centro casa, roupas, panelas e crianças. Essas continuarão, mas não serão mais únicas.
Daí que decidi mudar de área. Decidi que quero como profissão algo que eu me faça escrever. Sempre, todo dia. Formada em Letras, 7 anos dedicados à sala de aula, não tenho experiência alguma na área, exceto pelo blog. Só muita vontade mesmo de trabalhar. Então, por falta de um “networking”, ou um Q.I. (vulgo “quem indica”), coloquei meu currículo e minhas pretensões em vários sites de emprego.
Semana passada, um ou dois dias depois do cadastro, recebi um telefonema de uma empresa. Queriam marcar uma entrevista, mas não sabiam me dizer para que vaga ou qual o salário. Somente que queriam fazer uma entrevista comigo. Nunca participei desses processos, sem saber exatamente o que encontrar, marquei uma hora e fui. Linda, feliz, sem esperanças, mas cheia dessa energia boa de “algo está acontecendo”.
A gente sempre desconfia quando chega a um lugar e ele é bem diferente do que tínhamos imaginado. Uma sala pequena, abarrotada de pessoas diferentes umas das outras, com o ar-condicionado quebrado e nenhuma janela, me deixou com aquela pulga. Depois de um vai-e-vem de pessoas entrando e saindo de outras salas, sempre fora da ordem de chegada e com um atraso absurdo, um rapaz perdeu a paciência e foi tirar satisfação com a secretária. Um minuto depois, foi chamado. Mais dois minutos, ele voltou da parte interna revoltado, falando bem alto o quanto aquilo era uma enganação e uma perda de tempo. Todos os que estavam na salinha deixaram seus silêncios e passaram a conversar. Nenhum sabia a que vaga concorria, tinham cadastrado o currículo na internet, assim como eu, e foram chamados em seguida. Todos ansiosos, esperançosos, gastando seu dia por aqueles minutos. A minha hora também passou, também fui pedir para ser atendida – a secretária quis marcar a entrevista para outro dia, mas eu recusei – e logo fui chamada.
Não entendo de RH. Não entendo de empresas que recolocam as pessoas no mercado. Por isso, segui o protocolo e conversei com a funcionária que me chamara. Aquela era uma empresa que presta serviços a empresas de RH. Se a vaga surgisse, meu currículo seria encaminhado. Não era uma entrevista propriamente dita. Ela pouco perguntou, me falou da sua fome e do cansaço. Me pediu que eu enviasse uma carta de apresentação para a possibilidade de vagas que aparecessem. Quando saí, as pessoas do hall me perguntaram se ela havia me cobrado alguma coisa. Não, até porque havia um formulário que usava termos como “custo zero”. Pois outra moça acabara de sair revoltada por lhe cobrarem e aceitarem, inclusive, cartões de crédito.
A sensação que tive? Um conjunto de oportunistas querendo tirar dinheiro de pessoas que querem trabalhar. A impressão é que pedir emprego e mendigar tornaram-se sinônimos (e, agora pouco, procurando no dicionário Houaiss, descobri que podem ser). Algumas dessas empresas de emprego são muito irresponsáveis! Como é que elas fazem com que as pessoas percam tanto tempo e dinheiro para irem até ali? Se não há vaga, se o perfil não é exatamente aquele, como é que marcam essas entrevistas? Pelo que percebi conversando com os outros candidatos é que esta não é a única que faz isso. Muitas empresas tratam as pessoas como se elas fossem coitadas, ou idiotas.
Que fique claro, ao procurar um emprego, eu não estou implorando. Não quero que tenham pena do meu ser e me deem um emprego qualquer. Colocar-se disponível no mercado de trabalho é oferecer os próprios dons, as próprias habilidades a outros que as necessitam. Trabalho é uma troca, não um favor, de nenhuma das partes. Mesmo que eu não tenha experiência na área, mesmo que eu não saiba exatamente o que vou encontrar, ainda que eu precise daquele trabalho. É preciso tratar as pessoas com um pouco mais de dignidade, com muito mais honestidade. Ou só quem tem um Q.I. não é um “coitado”? Procurar por vagas na internet, precisar arrumar um emprego para sobreviver, colocar-se à disposição é mendigar?
P.S.1: Não conheço empresas de RH, por isso, não generalize. Falo de gente desonesta e oportunista.
P.S.2: Se você tem alguma dica para me dar sobre essa minha nova empreitada, agradeço!
P.S.3: Vou ter que escrever um post sobre a época em que eu lecionava. Alguns ex-alunos têm escrito coisas maravilhosas e isso realmente mexe comigo. Se eu era tão boa professora, por que não quero voltar à sala de aula?
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