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A fala, a dor, o desabafo – ou “permissão para um grito”

24 mai

Não se pode dizer que somente um acontecimento pode ser determinante em nossas vidas. Conforme a vida flui, vários fatores podem nos influenciar. Alguns, ainda assim, podem ser muito determinantes.

Durante muitos anos, acreditei que a separação dos meus pais tinha sido um dos principais.

Esta semana, com toda a repercussão que o post sobre abuso infantil teve, ao ler os diversos comentários, ao falar sobre isso, me surpreendi com tudo o que veio à tona dentro de mim.

Fui convidada pelo Boticário a participar de um evento dentro do Fashion Rio. Moda não é muito minha praia, muito menos preocupação com estética e coisas do gênero. Com uma auto-estima ridiculamente baixa, sinto-me muito mal em ambientes como esse. Mas fui.

No caminho, dirigindo, comecei a me debater internamente – beleza, auto-estima, abuso infantil. De repente, minha mente fez “click” e a ficha caiu.

O fato dos meus pais terem se separado – mesmo meu pai não tendo nunca sido ausente – quando eu tinha 5 anos, pode ter sido complicado para mim. Na fase em que as meninas tem o pai como um ídolo, a separação foi confundida com “ele não me quer mais” inconsciente.

Alguns anos depois, entre 10 e 12 anos, houve o abuso vindo de uma pessoa próxima que não era da família. Aqui (e em lugar nenhum), interessa quem, interessa como, interessa porque. Eu não tinha consciência do que acontecia.  Tinha medo.

Para ajudar, nos anos próximos, sofria bullying na escola. Aos 12 anos, lembro-me de voltar todos os dias da escola chorando, porque as outras crianças riam de mim, algumas vezes me agrediam, muitas, me humilhavam: ganhei até o apelido de “Sofeia” – e, se parece engraçado para quem lê, até hoje, tenho horror à palavra e é a primeira vez que a cito abertamente.

Adolescente, me revoltei. Iniciei a vida sexual nova demais, abusei de drogas e álcool, vivia em busca do “homem dos sonhos”, sempre me envolvendo com rapazes problemáticos, que não me respeitavam, que, de certa maneira, também me agrediam – fosse pelas palavras ou atitudes.

Depois de adulta, fiquei mais tranquila. Na verdade, tornei-me cada vez mais séria, mais tímida e menos espontânea em ambientes diferentes, com dificuldade de falar claramente às pessoas o que penso.

Três anos atrás, logo após meu casamento, tive síndrome do pânico e depressão.

Eu não tinha percebido que passei a adolescência dando continuidade à agressão. Talvez por carregar a responsabilidade pelo ocorrido, era como se eu não merecesse ser feliz, mesmo achando que era essa minha busca.

A sexualidade exacerbada, as drogas, a depressão… tudo explodiu dentro de mim, ali no carro, dirigindo, e eu pude ver o quanto estavam relacionadas ao abuso.

Passei anos e anos tão calada, atribuindo tudo a outras coisas. Passei anos tentando ser aceita pelas pessoas, tentando ser amada. Talvez porque eu não me amava, porque eu não me aceitava. Porque eu não me permitia gritar a raiva que tive dessa situação, a raiva que tive de mim. Talvez porque eu não me permiti escutar “não foi culpa sua, você não o provocou, você não é alguém suja, alguém ruim.” É como se eu tivesse a obrigação de perdoá-lo, mas não a mim mesma.

E agora, aqui, eu queria gritar, bater, explodir. Queria parar com essa dor que voltou e agora tem nome. Porque, honestamente, eu não quero me vitimizar, entretanto não quero mais continuar vítima desse abuso que até há pouco me deixou doente. Quero me sentir leve e não carregar mais toda essa nojeira comigo.

Para rir da própria doença

12 abr

Estou em meio a um ataque de síndrome do pânico. É, eu tenho essa linda.

Ai, uma barata!

Aqueles que não conhecem a doença devem estar imaginando que eu esteja como uma pessoa defronte a uma barata. Ter pânico – ou, mais precisamente, pavor – de baratas e bichos nojentos pouco se assemelha com essa tão simpática síndrome de ansiedade absurdamente alta e ridícula.

Pouco depois que fui diagnosticada, há 2 anos e meio, minha médica me deu a seguinte explicação. Duas pessoas sobem uma escada muito extensa. Ao chegar no fim, uma pessoa “normal” diz que está cansada e que deveria fazer mais exercícios. Aquela que têm a bendita síndrome do pânico está verificando a pulsação, pensando se ela vai ao médico agora ou depois do ataque cardíaco que, certamente, ela terá em poucos minutos – resumindo, ela pensa que está morrendo.

Eu ri muito quando escutei essa história. E pensei na minha vida toda. Quando criança, meu apelido era “Maria das Dores”, porque eu sempre estava com alguma dor fatal e ninguém dava bola. Pensava com meus botões “Quando eu morrer, minha mãe vai ver como essa dor é de verdade”. Até muito pouco tempo atrás, eu ainda pensava assim.

Não sei de outras pessoas que também têm este diagnóstico. Mas eu, que tenho muito medo de morrer, sempre acho que estou morrendo. Foi assim que fui parar no médico quando tive meu “primeiro grande ataque de pânico”. O corpo todo formigando, o batimento alterado, quase desmaiando. Entrei em um posto de saúde lá na Bahia (vejam, eu estava em Lua-de-Mel!), falando que ia desmaiar, que alguém me socorresse, “peloamordedeus”. Enfermeiros, médicos, pacientes, todo mundo me pegou antes de eu cair. Oxigênio, estetoscópio, aparelho de medir pressão, eu, aos prantos, escutando o médico falar “filha, seus batimentos estão regulares, sua pressão está ótima. Você está tendo um ataque de pânico”.

Alguns dias depois, travada no trânsito, sem conseguir dirigir mais nenhum metro porque certamente um carro iria me acertar, percebi como isso sempre esteve presente em minha vida. Quantas vezes, fui a um médico por causa de uma dor “estranha” na cabeça (#aloka), um sensação esquisita pelo corpo. Me lembrei, inclusive, de um médico me dizer uma vez “você vai morrer… um dia, mas não hoje”.

Agora, enquanto digito essas palavras com dificuldade por causa da tremedeira, a sensação não é diferente da do passado. Mas, de uns meses para cá, depois de ir lá no fundo, tomei uma decisão. Toda vez que sinto tudo isso, faço uma oração, agradeço pela vida que tive (é verdade, apesar de absurdo) e espero. Porque não há nada que eu possa realmente fazer se minha hora tiver chegado. Não vai adiantar eu fazer meu marido e meus dois filhos me levarem à emergência cada vez que eu me sentir assim. Adianta muito mais eu aguentar firme na minha loucura e dormir. Quando acordo no outro dia, percebendo que ainda estou viva, fico feliz, feliz. Feliz, porque ninguém precisou me acudir, feliz, porque sobrevivi não só à ameaça de morte, mas, principalmente, à minha loucura…

 

(para atualizar… agora que terminei de editar o texto… passou! ah, sua doencinha brincalhona!)

O meu lado covarde

2 abr

Lembra quando estávamos na 6a série e todo mundo gritava “nóóóóóó” ao escutar que um infeliz tinha levado um fora? Eu era a infeliz. Não só levava muitos foras, como não sabia dar nenhum… até hoje em dia sou assim.

Tenho um problema sério: eu não sei falar o que penso. Não sei responder ao meu interlocutor que não gostei do que disse ou do que fez. Eu simplesmente silencio. Guardo. E depois guardo de novo, e de novo. Até que um dia, em uma situação qualquer, eu explodo e falo tudo. Falo mais do que deveria, acabo ferindo o outro, acabo falando coisas que, durante anos, eu elaborei, mas não tive coragem de dizer. Quanto mais tomo consciência disso, mais eu me sinto uma covarde, por mais que eu tenha explicações para essa minha dificuldade.

Lembro-me da primeira vez em que isso aconteceu. Eu tinha uns 10 anos. Minha melhor amiga, e minha comadre atualmente, era aquela que sabia dar tiradas em todos. Depois de vário foras, durante um jogo de beisebol, eu estourei. Terminei a amizade com a frase: “Só porque você é loira, tem olhos verdes, usa aparelho e sabe dar foras, você não é melhor do que eu!” Saí batendo os pés e chorando muito. Era minha melhor amiga e eu não sabia como responder às brincadeiras. Bem óbvio que, alguns dias depois, estávamos brincando novamente, rindo muito como se nada tivesse acontecido. Ainda bem.

Das outras vezes em que isso aconteceu, já adolescente e, depois, jovem, eu não tive tanta sorte. Desabei meu amontoado de palavras em cima de amigas que, com certeza, durante algum bom tempo, carregaram muita mágoa por causa da dureza de tudo que disse. Fiquei sem algumas delas por um bom tempo.

Mas isso acontece não só com minhas amigas. Acontece o tempo todo. Familiares, conhecidos, desconhecidos. É só alguém me falar algo que eu não concorde e eu travo. Tá, algumas vezes consigo falar o que penso. Geralmente, na primeira vez em que escuto, eu respondo. Talvez, eu responda de um modo muito educado, ou muito baixo, ou muito covarde, porque, geralmente, a situação se repete. E aí, nas vezes seguintes, como eu já falei uma vez, eu me calo.

Quando acontece com estranhos que, de algum modo, sou obrigada a vê-los com alguma frequência, como um síndico, uma funcionária de casa, um colega de trabalho ou uma vovozinha que mora na rua ao lado, eu também fico quieta. Tá, até com gente que nunca mais vou ver, eu fico quieta. Outro dia, na fila do mercado, uma senhora encheu meu saco porque a roupa que minha filha usava era muito quente. Não, não era tão quente. Ela usou de todos os argumentos, eu respondi educadamente a cada um deles. Depois, fiquei me remoendo – por que eu simplesmente não a mandei para qualquer outro lugar?

Um dos pontos é que eu detesto brigar. E, por mais “paz e amor” que pareça ser, a verdade é que eu não sei brigar. Se a pessoa passa para a agressão verbal, eu perco o chão; me ofendo facilmente, levo para o lado pessoal e acabo ficando sem saber o que fazer, ou o que falar. Eu prefiro não me arriscar a levar um “fora” e não ter argumentos.

Um exemplo simples é a internet. Toda vez que leio algo que não gosto, passo muitos dias elaborando uma resposta àquilo. Estruturo os assuntos internamente, repenso todas as possibilidades de resposta, já deixo os argumentos prontos para cada fala. E aí, eu escrevo. Quando eu quero conversar sério, faço o mesmo exercício mental. Planejo repetidas vezes tudo o que pretendo falar, antes de, realmente, começar a conversa.

A explicação pode se facetar em várias: insegurança, tentativa de controlar tudo ao meu redor, baixa auto-estima, não gostar de brigas, etc. Infelizmente, a conclusão a que tenho chegado é que, provavelmente, eu seja mesmo um pouco covarde. E isso me entristece. Principalmente, porque tenho percebido o quanto essa característica ainda me faz mal. O quanto, em muitas situações, eu precisaria ser mais firme, mais sincera, menos podada ou educada.

Tenho tentado mudar isso. Mas devo dizer que é muito, muito difícil. É como se eu estivesse lutando contra minha natureza. Pareço estar batendo contra um muro que nunca irá ceder. Parece que, por ser adulta, descobrir que há tanta covardia dentro de mim é uma vergonha. Não só para mim, mas para o exemplo que ofereço a meus filhos.

#neurose 7 Superego ou mania de perseguição?

2 ago

Essa eu sofro todos os dias…

Sabe que aquela voz interna que fica te reprimindo? Acredito que todo mundo tem (tomara!). Essa voz é chamada pelos psicanalistas de Superego – quem não souber o que é, dá uma olhadinha aqui (uma explicação bem simples, mas que dá para o gasto).

A minha voz interna que me repreende era usualmente representada pelo meu pai. Toda vez que eu fazia algo errado, vinha a imagem do meu pai me dando aquela bronca de me fazer chorar.

Hoje em dia, acho que superei a imagem do meu pai. Meu superego se despersonalizou e tornou-se qualquer “um”: os vizinhos que me escutam, outras mães, meus sogros, meus pais, enfim, qualquer pessoa que já tenha emitido uma opinião contrária àquilo que estou fazendo “errado”.

Então, acontece assim: deixei a casa bagunçada, vem a imagem do meu marido me dando uma bronca (ele nunca fez isso, mas veja o que uma mente insana é capaz). Tomo certas atitudes com meus filhos, outras mães me repreendem (dentro de mim, viu?). Falei alto demais, coloquei música weird, os vizinhos começam a falar (na minha cabeça louca, tá?).

É como se as pessoas soubessem exatamente tudo o que faço e penso e pudessem me repreender por isso – ALOKA. Não chega a ser uma mania de perseguição (ou chega? ai, meu deus!), porque vivo feliz e continuo a fazer tudo que acredito. Mas que, algumas vezes, cansa, com certeza, cansa. E, aí, a louca aqui precisa gritar (internamente, tá?) para que essas vozes se calem…

#neurose 6 Doenças

23 jul

Quando assisto a um programa sobre doenças, fico tão impressionada que chego a achar que tenho aquilo. Se, coincidentemente estiver com esta parte do corpo doendo, certeza que resultará em morte…

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