
Não se pode dizer que somente um acontecimento pode ser determinante em nossas vidas. Conforme a vida flui, vários fatores podem nos influenciar. Alguns, ainda assim, podem ser muito determinantes.
Durante muitos anos, acreditei que a separação dos meus pais tinha sido um dos principais.
Esta semana, com toda a repercussão que o post sobre abuso infantil teve, ao ler os diversos comentários, ao falar sobre isso, me surpreendi com tudo o que veio à tona dentro de mim.
Fui convidada pelo Boticário a participar de um evento dentro do Fashion Rio. Moda não é muito minha praia, muito menos preocupação com estética e coisas do gênero. Com uma auto-estima ridiculamente baixa, sinto-me muito mal em ambientes como esse. Mas fui.
No caminho, dirigindo, comecei a me debater internamente – beleza, auto-estima, abuso infantil. De repente, minha mente fez “click” e a ficha caiu.
O fato dos meus pais terem se separado – mesmo meu pai não tendo nunca sido ausente – quando eu tinha 5 anos, pode ter sido complicado para mim. Na fase em que as meninas tem o pai como um ídolo, a separação foi confundida com “ele não me quer mais” inconsciente.
Alguns anos depois, entre 10 e 12 anos, houve o abuso vindo de uma pessoa próxima que não era da família. Aqui (e em lugar nenhum), interessa quem, interessa como, interessa porque. Eu não tinha consciência do que acontecia. Tinha medo.
Para ajudar, nos anos próximos, sofria bullying na escola. Aos 12 anos, lembro-me de voltar todos os dias da escola chorando, porque as outras crianças riam de mim, algumas vezes me agrediam, muitas, me humilhavam: ganhei até o apelido de “Sofeia” – e, se parece engraçado para quem lê, até hoje, tenho horror à palavra e é a primeira vez que a cito abertamente.
Adolescente, me revoltei. Iniciei a vida sexual nova demais, abusei de drogas e álcool, vivia em busca do “homem dos sonhos”, sempre me envolvendo com rapazes problemáticos, que não me respeitavam, que, de certa maneira, também me agrediam – fosse pelas palavras ou atitudes.
Depois de adulta, fiquei mais tranquila. Na verdade, tornei-me cada vez mais séria, mais tímida e menos espontânea em ambientes diferentes, com dificuldade de falar claramente às pessoas o que penso.
Três anos atrás, logo após meu casamento, tive síndrome do pânico e depressão.
Eu não tinha percebido que passei a adolescência dando continuidade à agressão. Talvez por carregar a responsabilidade pelo ocorrido, era como se eu não merecesse ser feliz, mesmo achando que era essa minha busca.
A sexualidade exacerbada, as drogas, a depressão… tudo explodiu dentro de mim, ali no carro, dirigindo, e eu pude ver o quanto estavam relacionadas ao abuso.
Passei anos e anos tão calada, atribuindo tudo a outras coisas. Passei anos tentando ser aceita pelas pessoas, tentando ser amada. Talvez porque eu não me amava, porque eu não me aceitava. Porque eu não me permitia gritar a raiva que tive dessa situação, a raiva que tive de mim. Talvez porque eu não me permiti escutar “não foi culpa sua, você não o provocou, você não é alguém suja, alguém ruim.” É como se eu tivesse a obrigação de perdoá-lo, mas não a mim mesma.
E agora, aqui, eu queria gritar, bater, explodir. Queria parar com essa dor que voltou e agora tem nome. Porque, honestamente, eu não quero me vitimizar, entretanto não quero mais continuar vítima desse abuso que até há pouco me deixou doente. Quero me sentir leve e não carregar mais toda essa nojeira comigo.

Tenho um problema sério: eu não sei falar o que penso. Não sei responder ao meu interlocutor que não gostei do que disse ou do que fez. Eu simplesmente silencio. Guardo. E depois guardo de novo, e de novo. Até que um dia, em uma situação qualquer, eu explodo e falo tudo. Falo mais do que deveria, acabo ferindo o outro, acabo falando coisas que, durante anos, eu elaborei, mas não tive coragem de dizer. Quanto mais tomo consciência disso, mais eu me sinto uma covarde, por mais que eu tenha explicações para essa minha dificuldade.


Quem falou dos pedidos?