Pequena menina abre a porta
A vida muda
Muda, falava demais
Angústias juvenis
Menina mulher buscando
não havia compreensão interna
O sexo oposto a oprimia
enfurecia, enchia-a de ideais
Arrancou sua casca, ficou nua
criou revolta
desmanchou tecidos e tecidos ilusórios
Gritou
Declarou
Mudou
Muda brotando no vaso
Mulher tornou-se, a menina
Após afogar-se
após escurecer
após calar a criança
A imagem do espelho era outra
Curvas mais certeiras de si
Firmeza na voz aguda
Primeiras amadas rugas
Havia naquelas certezas
Aquela voz
Constante, grave, brava, “chicobuarqueana”
Havia naquele encontro entre menina e mulher
um encontro aquém
tão impossível, tão distante do real
Presença certa
permitindo-a nascer
tornando o parto possível
E nessa possibilidade
O que era desejo afastou-se
por vidas alheias
por regras
por preservação
desta espécie mulher surgindo.
A pequena mulher já não abre a porta
A porta abre-se para ela
Surge gratidão.
Sofia Amorim – maio 2010