O cabelo, a vaidade e o Formol

1 jun

Tudo bem, todo mundo sabe que o formol da escova progressiva pode ser um problema. Mas toda mulher que tem cabelos indomáveis sabe que outras escovas não fazem o mesmo efeito. Meu cabelo não é enrolado. Por sinal, ele é relativamente liso. Mas tem a frente, tem aqueles cabelinhos “bebês” que sobem, ficam ouriçados como  raios de sol em desenhos de criança. E isso acaba com a minha (pouca) vaidade.

Então que eu nunca fiz muitas escovas na minha vida. Devo ter feito umas duas progressivas e uma três “inteligentes” e eu estava cansada dos meus bonitos fazendo “ola” na minha testa todos os dias… E aí que eu resolvi que ia fazer uma progressiva e fodam-se todos os problemas que já li e vi com o formol. E fui, linda, feliz em um salão acessível ao meu bolso e muito recomendado.

Durante as duas horas e meia que estive lá, não me senti muito bem, mas sabia que era por causa do produto. Quando voltei para casa, comecei a sentir os efeitos de forma mais intensa: falta de ar, tremedeira, taquicardia, mãos gélidas. Como sou uma pessoa normal, not, subiu aquele desespero: hospedada na casa da minha irmã, sem maridon por perto, com a sister trabalhando e três crianças a todo vapor, o que eu ia fazer? Liguei para várias pessoas para saber se era normal. Comecei a entrar em pânico, até que a super-liga das amigas, tanto por telefone, quanto pessoalmente, entrou em ação. Uma amiga me acalmava por telefone, outra veio nos buscar, outra olhou a galerinha e fomos – eu e uma amiga – para o hospital.

A minha questão – e a de todos com quem conversei e me conhecem – era: até que ponto o que eu sentia era devido à inalação do formol ou era devido à síndrome do pânico. Quanto mais eu pensava, mais nervosa ficava – porque seria injusto demais dar tanto trabalho a tanta gente por causa de uma crise de pânico.

Logo que cheguei ao hospital, informei que era intoxicação por formol e fui rapidamente atendida. O que descobri? Não era uma crise de pânico, era intoxicação mesmo e a melhor coisa que tinha feito era ter procurado ajuda médica, pois poderia piorar ao longo da noite. É lógico que o desespero não faz parte da intoxicação, mas a preocupação era genuína…

Saindo de lá, devidamente medicada e dopada, fiquei pensando no custo que pagamos pela nossa vaidade. Quantas pessoas não passam mal, algumas chegando a óbito, por causa da vaidade? Seja em função da progressiva, ou de uma lipo, ou de uma plástica e outros tantos milagres prometidos pela indústria da beleza?

Por que eu não posso aceitar meus indomáveis cabelinhos? Por que as pessoas precisam julgar minha aparência, ou até mesmo quem sou, por não ter o cabelo considerado mais bonito? Será mesmo que a gente precisa se maltratar tanto para alcançar níveis de beleza absurdos (não que eu tenha sequer me aproximado deles, mesmo com meus lisos cabelos)? A gente condena fumantes, alcoólatras, viciados em drogas, obesos, compulsivos de todas as formas. E a vaidade? Será que quem se propõe a todo tipo de intervenção, correndo o risco de morte, não poderia ser colocado no mesmo hall? E eu não estou me excluindo não, amigos, porque sou fumante e fiz a progressiva.

Na verdade, por que não podemos aceitar quem somos do jeito que somos? (não tenho a resposta, tá, se alguém a tiver, por favor, escreva!)

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A @ButecoFeminino no #FashionRio 2013, a convite do Boticário

25 mai

(Um post para tornar este Buteco mais light, né, gente!?)

Como já disse outro dia, e como quem me acompanha sabe, não entendo muito de moda. Pra falar bem a verdade, não entendo nada. Tá, eu consigo não fazer combinações bizarras quando saio, mas só e olhe lá. Também não sou muito ligada em cuidados com a pele e o corpo, gostaria, vira e mexe compro um creminho cheio de bláblá, passo durante duas semanas e depois… me esqueço que eu tinha prometido para mim mesma que ia me tornar uma mulher mega hidratada com a pele macia e rejuvenescida e os cabelos brancos tingidos e as unhas pintadas.

Olha, que chique!

Mas, como eu ‘tô ficando chique (hahaha, até parece), fui convidada pelo Boticário a participar de um evento que ia ocorrer dentro do Fashion Rio 2013. Nossa, fiquei tão animada (mesmo). Achei tão legal poder participar de algo que não conheço! Aceitei o convite, e, para chegar lá “digna”, em 12 horas, pintei raízes brancas do cabelo, lavei louça, dei banho em criança, pus criança para dormir, cortei molde de bolsa até 2 h da manhã, cuidei de filha doente, dormi 4 horas, dei café da manhã para as crianças, limpei a casa toda, fiz uma super escova no cabelo, pintei as unhas, fiz uma maquiagem básica e, ufa, fui linda e sem almoço para o Fashion Rio. Sozinha. Buáááááááá. Como faz falta uma amiga em uma ambiente estranho e tão feminino!

Eu não tinha a menor ideia do que era. Ao invés de dar uma estudada no que ia encontrar, em tudo o que estava acontecendo (porque eu tinha muito tempo sobrando, né?), fui às escuras. Lá, fui convidada a participar de um coquetel de lançamento de novos produtos da linha NativaSpa.

***** Pausa ****

O Boticário lançou no Fashion Rio mais duas linhas de produtos à marca Nativa Spa – Argiloterapia, com produtos à base de argilas; e Frutoterapia, com produtos à base de Monoï e Argan. 

A linha Nativa SPA Argiloterapia é composta por trio de sabonetes, pré-shampoo purificante, máscara facial purificante, gommage esfoliante corporal purificante, loção hidratante purificante e hidratante facial purificante. Os seis itens possuem propriedades de limpeza profunda, desintoxicação, redução da oleosidade e revitalização da pele.

Já o trio de sabonetes, sabonete líquido, hidratante de banho, loção ultra hidratante e máscara facial de Frutoterapia foram desenvolvidos com dois ingredientes surpreendentes, Monoï e Argan, com objetivo de ultra hidratação.

***** *****

Feita a divulgação da marca, deixa eu continuar…

Eu juro que tentei conversar com as pessoas. Juro mesmo. Puxei papo aqui, puxei papo ali, tentando vencer minha timidez típica nesses lugares. Mas juro que ninguém quis ficar batendo papo comigo.

Meu presentinho

Vi o lançamento, ganhei uma super massagem no lounge do Boticário, ganhei produtos, fui querer me inteirar de tudo, conhecer mais gente… Não sendo possível ir em outros lounges porque não era VIP, fui fazer uma maquiagem no Boticário Make B. E lá eu encasquetei que, se eu já estava dentro, por que não tentar ganhar um convite para um desfile?

Daí pensa naquela pessoa que não sabe como conversar com as pessoas… Devo ter passado uns 15 minutos tomando coragem para perguntar para duas moças quem eram as pessoas que ofereceram convites a elas. Depois, mais um tempão procurando as bonitas. Mais uns 10 minutos tomando coragem para perguntar para dois moços como conseguir convites. Era impossível, mas tinha a fila dos “sem-convites”. Se eu ficasse na frente da entrada, podia conseguir algum.

Olha a passarela… Super máquina, não é? Impressionante!

Depois de quase uma hora andando de um lado para o outro, tentando enxergar alguém oferecendo convites, pensando em como eu fazia o papel de ridícula – porque as phynas chegavam com o convite na mão e eu estava com aquela cara inegável de quem é intruso -, vi uma moça entregando convites, me aproximei, ela me ofereceu, e eu entrei linda, “a louca”, para ver o desfile das Filhas de Gaia.

Como se não bastasse, quando sentei lá trás, afastada, veio um moço e me perguntou se eu não queria sentar na primeira fila… Ow \o/

Tanto, tanto trabalho. 7 minutos de desfile. Juro, achei lindo! Juro que foi uma experiência muito legal, muito interessante e eu não queria ir embora, queria assistir a todos os desfiles.

Depois, fiquei pensando. A gente sabe que há uma indústria por trás da moda, dos cosméticos que fica impondo um certo padrão de beleza. Isso é fato, é triste, é verdade. Entretanto, acho que há outras perspectivas também. Primeiro, uma concepção da moda como arte, observando o desfile não como tendências para o verão 2013, mas como obras de arte em tecido, que passam por nós, invertendo a concepção de uma exposição de artes plásticas.

Outro ponto é que, apesar da mídia, ou quem quer que seja, impôr um conceito de beleza absurdo, nós não precisamos ser tão do contra que deixamos de nos cuidar como protesto. Eu não preciso ter a pele dos 20 aos 30? Não. Eu não preciso ter um corpo magro e definido? Não. Mas, sim, eu preciso cuidar do meu pequeno templo. Porque faz bem, porque é saudável, porque sentir-se bonita do jeito que somos, cuidadas, é algo mentalmente saudável também.

Já que não tinha amiga para tirar foto… Tenho que provar que fui…

Pode ser que esses cuidados que comecei essa semana irão água abaixo nos próximos dias. Ainda assim, é mais uma tentativa para se amar mais, se cuidar mais. Um dia, eu consigo… ou não!

Vista… ufa!

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A fala, a dor, o desabafo – ou “permissão para um grito”

24 mai

Não se pode dizer que somente um acontecimento pode ser determinante em nossas vidas. Conforme a vida flui, vários fatores podem nos influenciar. Alguns, ainda assim, podem ser muito determinantes.

Durante muitos anos, acreditei que a separação dos meus pais tinha sido um dos principais.

Esta semana, com toda a repercussão que o post sobre abuso infantil teve, ao ler os diversos comentários, ao falar sobre isso, me surpreendi com tudo o que veio à tona dentro de mim.

Fui convidada pelo Boticário a participar de um evento dentro do Fashion Rio. Moda não é muito minha praia, muito menos preocupação com estética e coisas do gênero. Com uma auto-estima ridiculamente baixa, sinto-me muito mal em ambientes como esse. Mas fui.

No caminho, dirigindo, comecei a me debater internamente – beleza, auto-estima, abuso infantil. De repente, minha mente fez “click” e a ficha caiu.

O fato dos meus pais terem se separado – mesmo meu pai não tendo nunca sido ausente – quando eu tinha 5 anos, pode ter sido complicado para mim. Na fase em que as meninas tem o pai como um ídolo, a separação foi confundida com “ele não me quer mais” inconsciente.

Alguns anos depois, entre 10 e 12 anos, houve o abuso vindo de uma pessoa próxima que não era da família. Aqui (e em lugar nenhum), interessa quem, interessa como, interessa porque. Eu não tinha consciência do que acontecia.  Tinha medo.

Para ajudar, nos anos próximos, sofria bullying na escola. Aos 12 anos, lembro-me de voltar todos os dias da escola chorando, porque as outras crianças riam de mim, algumas vezes me agrediam, muitas, me humilhavam: ganhei até o apelido de “Sofeia” – e, se parece engraçado para quem lê, até hoje, tenho horror à palavra e é a primeira vez que a cito abertamente.

Adolescente, me revoltei. Iniciei a vida sexual nova demais, abusei de drogas e álcool, vivia em busca do “homem dos sonhos”, sempre me envolvendo com rapazes problemáticos, que não me respeitavam, que, de certa maneira, também me agrediam – fosse pelas palavras ou atitudes.

Depois de adulta, fiquei mais tranquila. Na verdade, tornei-me cada vez mais séria, mais tímida e menos espontânea em ambientes diferentes, com dificuldade de falar claramente às pessoas o que penso.

Três anos atrás, logo após meu casamento, tive síndrome do pânico e depressão.

Eu não tinha percebido que passei a adolescência dando continuidade à agressão. Talvez por carregar a responsabilidade pelo ocorrido, era como se eu não merecesse ser feliz, mesmo achando que era essa minha busca.

A sexualidade exacerbada, as drogas, a depressão… tudo explodiu dentro de mim, ali no carro, dirigindo, e eu pude ver o quanto estavam relacionadas ao abuso.

Passei anos e anos tão calada, atribuindo tudo a outras coisas. Passei anos tentando ser aceita pelas pessoas, tentando ser amada. Talvez porque eu não me amava, porque eu não me aceitava. Porque eu não me permitia gritar a raiva que tive dessa situação, a raiva que tive de mim. Talvez porque eu não me permiti escutar “não foi culpa sua, você não o provocou, você não é alguém suja, alguém ruim.” É como se eu tivesse a obrigação de perdoá-lo, mas não a mim mesma.

E agora, aqui, eu queria gritar, bater, explodir. Queria parar com essa dor que voltou e agora tem nome. Porque, honestamente, eu não quero me vitimizar, entretanto não quero mais continuar vítima desse abuso que até há pouco me deixou doente. Quero me sentir leve e não carregar mais toda essa nojeira comigo.

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A Xuxa, o abuso infantil e aquela pessoa querida que frequenta sua casa

21 mai

É preciso abrir os olhos

Ontem, ao escutar o relato da Xuxa no Fantástico, não me comovi. Eu a amava na infância, mas não faço a menor questão que ela seja a rainha dos meus baixinhos aqui em casa – tanto que eles mal sabem sobre ela.

Só que hoje, ao me deparar com os relatos (maldosos) nas redes sociais, eu gelei. Eu tremi. Li alguns textos, como o do Walcyr Carrasco, aqui, e chorei. Chorei, chorei, chorei.

Explico. Assim como várias pessoas e a loira polêmica, também passei sofri abuso na infância. Tremi porque as pessoas só podem ser ignorantes demais para julgá-la e tratar desse assunto como leviano. O.K., podemos até discutir bravamente sobre o modo como ela escolheu para expôr sua dor.

Agora, para tudo e pensa: mesmo que tenha sido por audiência ou por uma causa nobre, estamos todos hoje falando sobre algo importante – não exatamente a Xuxa, mas o abuso infantil. Poucos que não passaram por isso conseguem ter ideia de como isso pode ser doloroso. E aí é bem fácil fazer comentários imbecis e pejorativos.

Quero falar sobre isso não só por ter passado por esta situação, mas por ter filhos e para poder alertar outras mães.

A primeira coisa é que, por mais absurdo que pareça, geralmente, o abusador é uma pessoa que você E suas crianças amam. As pessoas acreditam que o abusador será um estranho que um dia estará em sua casa por acaso. Pelo contrário. Provavelmente, será um familiar, um amigo próximo, alguém que frequenta a casa. Como se não bastasse, é bem certo que ele tenha carisma e todas as crianças o amem. Então, será muito difícil desconfiar que aquela pessoa estará fazendo mal para alguém. No meu caso, era uma pessoa muito próxima da minha família e que transmitia muita confiança e muito amor a todos.

Outro ponto é que, se você perguntar ao abusador o motivo pelo qual ele fez isso, a resposta pode surpreender. Muitos argumentarão que os pequenos se insinuaram, pediram e mostraram que queriam; outros dirão que não fizeram nada além de “carinho”.

A criança não sabe o que é desejo sexual propriamente dito, isso todos nós (mentalmente sãos) sabemos. Entretanto, ignoramos que ela sabe o que é prazer – porque sabe como é gostoso brincar, comer, estar perto da família – e que são curiosas. Quando o agressor a vê, ele não consegue diferenciar essa curiosidade e passa a responsabilizá-la por seus abusos.

Passar a vida achando que você foi a responsável pela loucura alheia e por sua própria enorme dor é torturante Haja terapia para dar conta do recado.

Se o adulto fala que aquilo é só um “carinho”, as crianças não têm, então, o que temer… Mas, internamente, elas sentem que há algo errado. Por temor, por respeito ao adulto, por obediência não falam nada a ninguém, carregando sozinhas a confusão entre o “certo” e o “errado”, entre prazer e dor.

“Um segredo só nosso”, “ninguém vai acreditar em você”, “vou bater em você se disser a alguém” são algumas das falas usadas para o agressor calar a criança. E se algumas mudam o comportamento quando estão sendo abusadas, outras, temerosas pelo que passam, não. Eu não mudei meu comportamento de um modo geral. Passei a odiar o agressor, brigando o tempo todo com ele.

Minha mãe não percebeu – como desconfiar de um amigo tão querido? Aos 16 anos, contei para ela. E me senti culpada novamente, porque percebi como ela se sentiu traída por aquela pessoa, porque vi a sua dor da descoberta e o sentimento de culpa por não ter percebido antes. Eu devia ter contado na época, pensava comigo mesma.

Não quero que meus filhos passem por isso. Por essa razão, tomo alguns cuidados. Não permito que eles fiquem sozinhos com outros adultos durante muito tempo que não sejamos nós, pais. E quando ficam, nada de banhos a portas fechadas, nada de brincadeiras em quartos trancados, nada de ficarem brincando escondidos. Poucas foram as vezes que permitimos um adulto dormindo no quarto deles. Depois que flagrei meu pequeno brincando com seu “pipi”, achei que era hora de explicar a ele que, ali, quem mexe é ele e somente ele e que não existe carinho algum dentro da cuequinha vindo de ninguém. Já vi mãos de adultos se aproximando da cueca dele e tive arrepios e insônia. Ninguém mexe com eles, se eu puder evitar.

O principal é mantermos os olhos bem abertos. Porque, mesmo assim, corremos esse risco. E, por mais que ninguém queira falar sobre isso, por mais que todos finjam que isso não acontece na própria casa, o risco existe e muito pior é deixar que um filho carregue essa dor.

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Do machismo disfarçado

18 mai

Não é a primeira vez que leio um comentário grosseiro de um homem em um desabafo feminino. Outro dia, em um site sobre maternagem, a mãe fala sobre o quanto idealizamos esse momento e o quanto a realidade, pode ser diferente. Ótimo texto, por sinal, no MinhaMãequeDisse. Aí, o sujeito todo cheio de si escreve nos comentários o quanto essa mãe explora sua babá e blábláblá, tentando massacrar a mãe por suas escolhas. A autora do texto, a Mariana Zanotto, do blog Pequeno guia prático para mães sem prática, respondeu à altura e colocou o sujeito em seu lugar. Ele até desenvolveu melhor o assunto em um post no próprio MMqD, posteriormente. Apesar da sua explicação sociológica, econômica, etc, nada me tirou a impressão ruim de sua grosseria.

Até meu filho nascer, eu achava que o machismo tinha ficado lá com a queima dos sutiãs. Ilusão de quem foi criada por um pai muito participativo, por crescer em um ambiente nada machista e por ser, na maior parte do tempo, tão desconectada da realidade. Com as crianças, vieram diversas cobranças inesperadas – não necessariamente do meu marido, mas da sociedade em geral.

Não sou do tipo feminista radical, mas, realmente, vivemos sob o machismo – muito bem disfarçado de discursos igualitários. Vemos o machismo em diversos lugares: no óbvio, que eu não achava, como os cuidados com o lar – quantos homens você já ouviu dizendo que não pode fazer algo porque tem muita roupa para lavar? -; nos cuidados com os filhos; na imposição da imagem da mulher gostosa; no discurso da liberdade feminina, quando, na verdade, eles não estão nem um pouco preocupados com isso.

Uma das melhores ferramentas para isso é a inação. Por exemplo, quando estamos em casa, e algo precisa ser feito, o homem não diz (mais) “mulher, você precisa lavar esta louça”. Ele simplesmente não lava. Às vezes, não é a louça, mas a roupa, a faxina, qualquer coisa que, geralmente, se atribui às mulheres. Se eles não querem fazer, não falam nada, mas também não o fazem.

Sim, eu sei que, em muitas casas, as coisas não são assim. Sei que há homens que não agem nunca deste modo – meu pai é um deles, nunca o vi ser machista em aspecto nenhum…

Nós, mulheres, temos um nível de exigência interna de sermos perfeitas em quase tudo que assumimos e acabamos nos sentindo massacradas…

Daí que eu fiquei pensando em todas as coisas que, geralmente, são atribuídas às mulheres:

- manter a casa limpa e organizada, sem a ajuda de uma diarista (já que, como disse o Pedro, é uma exploração – não vou entrar nessa discussão, tá?);

- ter parto normal a qualquer custo e amamentar por, pelo menos, 1 ano, sem chances de erros;

- preparar uma alimentação equilibrada para as crianças nos horários certos e a comida preferida do marido;

- não permitir que as crianças vejam televisão ou joguem vídeo game;

- brincar com as crianças o maior tempo possível;

- colocá-los para dormir na hora certa;

-ser uma excelente profissional;

- não contratar uma babá (pelos motivos expostos pelo Pedro);

- não colocar na escolinha antes dos 2 anos;

- ser a pessoa que falta no trabalho quando as crianças adoecem;

- pôr limites nos filhos;

- estar sempre linda, cheirosa, gostosa e disponível para o sexo;

- entender quando o homem não quer sexo;

- não gastar demais;

- não falar demais, principalmente na frente dos amigos dele;

- preocupar-se com horários, tarefas, bolsa da escola, bolsa do passeio, horários dos remédios, consultas com médicos.

 

Preciso deixar claro algumas coisas quanto essa lista: primeiro, eu não acho que tenha problema fazermos tudo isso, ou parte disso, faz parte das nossas escolhas como família; segundo, algumas coisas são absurdas, mas, juro, que já vi várias delas; terceiro, eu sei que isso NÃO acontece em todas as casas, pus tudo o que me veio à mente para ilustrar um pouco o que estou falando.

Muitos homens dirão que não cobram nada disso de suas mulheres. Em parte, é verdade mesmo. Como disse anteriormente, não cobram, mas também não fazem. E aí, como muitas dessas coisas precisam ser feitas, somos nós que corremos atrás.

Outro ponto é que as próprias mulheres podem ser muito machistas umas com as outras. Então, me lembrei lá da 6a série: enquanto as meninas ficavam brigando para ver quem era a mais bonita, a mais popular, a mais isso ou aquilo, os moleques jogavam bola juntos, divertindo-se. Os homens continuam unidos, com seus vídeo-games, futebol, enquanto nós ficamos aqui na blogosfera disputando para ver quem é mais mãe, mais esposa, mais isso ou aquilo.

Cada uma vive do modo como achar melhor e isso é ótimo. O que me irrita são esses homens arrogantes que, imbuídos de um discurso democrático, torturam as escolhas maternas. Se na casa deles, eles são diferentes, palmas para eles. Mas isso não lhes dá o direito de ser grosseiro com outras mulheres que vivem diferentemente de suas esposas.

Homens e mulheres são diferentes, é bem óbvio. Cada um lida de um modo com a realidade ao seu redor. O que acho mais plausível é que cada um escolha a tarefa que tem maior facilidade e divida os papéis. Nada dessa coisa hipócrita de “não critico as mulheres”, mas também não faço m* nenhuma. Ou critica as mulheres dos outros.

Amigas, de verdade, precisamos nos unir mais. Vamos nós jogarmos uma bola, ou um vídeo-game, ou qualquer outra coisa. Vamos ser mais felizes juntas. Porque, enquanto estivermos brigando entre nós mesmas, os homens estarão jogando mais lenha na nossa fogueira – já que, assim, nós os incomodamos menos…

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